sábado, 7 de Novembro de 2009

RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ V ]

Rua da Bica de Duarte Belo - (2007) Fotógrafo não identificado (A Rua da Bica de Duarte Belo) in PANORAMIO
Rua da Bica de Duarte Belo - (2009) Foto de Curly z (A Rua da Bica de Duarte Belo) in A MINHA BICA

Rua da Bica de Duarte Belo - (2009) Fotógrafo não identificado ( Rua da Bica de Duarte Belo in MILA
(CONTINUAÇÃO)
RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ V ]
«A RUA DA BICA DE DUARTE BELO»
O traçado actual da «BICA» e a sua envolvente, de malha ortogonal hoje classificada de pré-pombalina, com a sua articulação entre ruas, escadas e travessas, apesar do acentuado declive do solo, é, como se vê, bastante anterior ao terramoto de 1755.
De um modo geral, o sistema de arruamentos que ali hoje podemos observar, tem por conseguinte, cerca de quatro séculos de existência e terá sido contemporâneo da edificação do «BAIRRO ALTO».
A «RUA DA BICA DE DUARTE BELO» é quase integralmente ocupada pelo elevador (inaugurado em 29 de Junho de 1892), aquando da sua passagem. Cruza a «BICA» de alto a baixo, como se de uma coluna vertebral se tratasse. Ao passar na «CALÇADA DA BICA PEQUENA» e nos laterais finais o «LARGO DE SANTO ANTONINHO» e a «TRAVESSA DA BICA GRANDE», indo terminar por debaixo do prédio onde finaliza ou começa o elevador, referenciado com o número 242 da «RUA DE SÃO PAULO».
De facto, a «RUA DA BICA DE DUARTE BELO» é a rua do elevador e, para muitos ela é mesmo considerada como o centro do «BAIRRO DA BICA».
Os pequenos comércios do bairro encontram-se quase todos nesta rua. Algumas "Tascas", frequentadas sobretudo por residentes locais, algumas lojas antigas, como a «CASA DOS BOTÕES», um Cabeleireiro, pequeníssimas mercearias, alguns artífices em pequenas oficinas.
Uma Colectividade o «VAI-TU», já perto da última Travessa que cruza a linha do elevador a «TRAVESSA DO CABRAL».
Diz-nos ainda o Mestre «NORBERTO DE ARAÚJO» nas suas «PEREGRINAÇÕES EM LISBOA» (...)"este «CABRAL», que deu nome à «TRAVESSA», foi o bacharel «MANUEL RODRIGUES CABRAL», que nasceu no final do século XVI e morreu em 1632; a «TRAVESSA» na direcção nascente poente, liga as «CHAGAS» a «SANTA CATARINA», pela «RUA DO ALMADA». Ainda mais uma nota, no número 35 no prédio da esquina nascente da «RUA DA BICA DE DUARTE BELO», e esse curioso pórtico nobre, que faz hoje a porta de um barbeiro; nenhum de nós pode afirmar, mas podemos admitir, que foi aqui o solar do «RODRIGUES CABRAL».
O Topónimo de «BUARTE BELO» é dado a um certo armador e negociante da LISBOA QUINHENTISTA, e que possuía na «BOAVISTA» umas casas e um terreno no qual existia uma bica, designada pelos seus utentes como «BICA DOS OLHOS».
Como curiosidade, "em 1726, publicava-se em Lisboa no «ARQUIPÉGIO MEDICINAL» que recomendava, como remédio infalível para terçolhos e outros males da vista, a lavagem dos olhos na «BICA DO DUARTE BELO». Devia ser antes do Sol nascer, para garantir a cura".
(CONTINUA) - (PRÓXIMO) «RUA DA BICA DE DUARTE BELO [VI] - O ELEVADOR DA BICA»



quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

RUA DA BICA DE DUARTE BELO [IV]

Rua da Bica de Duarte Belo - (2009) Fotógrafo não identificado (Troço da Rua da Bica de Duarte Belo com a esquina da Travessa do Sequeiro virada para as Chagas) in MILA
Rua da Bica de Duarte Belo - (2008) Fotógrafo não identificado (Troço da Calçada da Bica Pequena) in TRANSPORTES EM MOVIMENTO

Rua da Bica de Duarte Belo - (2000) Foto de Lampião (Bica dos Olhos na Rua da Boavista) esta bica representa uma Nau com os corvos de cada lado. Se ampliarem a imagem podem ler embora com certa dificuldade a inscrição: "He obrigado o dono desta propriedade a conservar esta bica sempre corrente e à sua conta". in SKYSCREPERCITY


Rua da Bica de Duarte Belo - (Início do século XX) Foto de Joshua Benoliel (O Largo do Santo Antoninho na Bica) in AFML
(CONTINUAÇÃO)
RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ IV ]
« SOBRESSALTOS DOS DESABAMENTOS»
Embora o «BAIRRO DA BICA» conserve o ar pacato e pitoresco que lhe foi timbre durante séculos, alguns sustos grandes lhe marcaram a vida.
De facto, segundo é tradição, davam as onze horas da noite em 21 de Julho de 1597 quando se ouviu uma voz desconhecida a gritar pelas ruas do sítio, que fugissem todos de casa porque o monte iria ruir. E assim aconteceu.
Mesmo não encontrando explicação para o estranho aviso, os moradores saíram em corrida, procurando abrigar-se mais para Norte.
Foi o que lhes valeu, já que às primeiras horas do dia 22 se deu na verdade a grande derrocada, que explica a abertura da colina a meio, dando azo à «RUA DA BICA DE DUARTE BELO», por onde hoje passa o elevador da «BICA».
A imaginação popular procurou feito miraculoso no aviso.
Mas simplesmente, como aventa mestre «JÚLIO DE CASTILHO», poderia tratar-se de qualquer transeunte retardatário que percebendo de desabamentos de terras, antevisse a desgraça que poderia dar-se, apressando-se a avisar os habitantes do local em perigo.
Aliás, em Outubro desse mesmo ano de 1597, novo desabamento ocorreu.
E o mesmo aconteceu em 13 de Fevereiro de 1621, com a «BOAVISTA» a ficar quase soterrada sob o monte de terra que lhe caiu em cima.
Todos estes sobressaltos tiveram lugar quando os Reis espanhóis reinavam em Portugal. No entanto, diga-se, o Senado da Câmara soube interpretar as necessidades dos moradores junto do Vice-Rei e obter as verbas necessárias para proceder aos arranjos preciosos, por forma a salvar o tempo de SANTA CATARINA e as casas nobres que por ali se erguiam.
(CONTINUA) - (PRÓXIMO) -«RUA DA BICA DE DUARTE BELO [V] - A RUA DA BICA DE DUARTE BELO»




sábado, 31 de Outubro de 2009

RUA DA BICA DE DUARTE BELO [III]

Rua da Bica de Duarte Belo - (2000) Foto de Lampião (Calçada da Bica Grande vista da Rua de S. Paulo) in SKYSCRAPERCITY
Rua da Bica de Duarte Belo ( 1967) - Foto de Garcia Nunes (Calçada da Bica Grande vista da Travessa do Cabral) in AFML

Rua da Bica de Duarte Belo - (194_) Foto de Eduardo Portugal (O Nicho no início da Calçada da Bica Grande) in AFML


Rua da Bica de Duarte Belo - (1945) foto de Fernando Martinez Pozal (Calçada ou Escadas da Bica Grande) in AFML



Rua da Bica de Duarte Belo - (s/d) Fotógrafo não identificado (Calçada da Bica Grande vista da Rua de S. Paulo) in AFML
(CONTINUAÇÃO)
RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ III ]
«O BAIRRO DA BICA (3)»
O contíguo edificado, maioritariamente construído por arquitecturas vernaculares dos séculos XVII e XVIII, vale pelo seu conjunto. As fachadas são simples mas harmoniosas. Algumas ostentam ainda as pequenas placas de calcário, onde aparece a referencia SEE ou Santa Maria Maior abreviado, recordando-nos que todos os edifícios da «Bica» eram foreiros ao Cabido da Sé.
Destacam-se dois registos de azulejos, um neoclássico, sobre a porta com o número quatro da «RUA DA BICA DE DUARTE BELO», e um outro, "rocaile"(1), sobre o número dezoito da «TRAVESSA DO SEQUEIRO», muito próximo do eixo central, ambos com a Virgem e o Menino ladeados por S. Marçal e Santo António. No gaveto da «TRAVESSA DO CABRAL», o único edifício senhorial de todo o bairro, com uma impositiva porta barroca.
Diz-nos NORBERTO DE ARAÚJO nas suas "PEREGRINAÇÕES EM LISBOA" livro XIII, página 65: "Este prédio, de fachada restaurada, no número 182, defronte da antiga casa da moeda, tem uma lápide de pedra que diz a sua idade «1707». (...) esse gracioso nicho, com forma de baldaquino vasio, em lavra Manuelina, no cunhal do prédio da esquina Oriental da CALÇADA (escadinhas) DA BICA GRANDE". Uma das entradas para o «BAIRRO DA BICA».
Fala-nos também do «PÁTIO DO BROAS», embora a designação seja local, estranha não estar nos roteiros. É nesse pátio que existe um tanque seiscentista com uma BICA, que corre para o tanque de pedra numa reentrância de abóbada redonda, relativamente comprida, com uns cinco metros de fundo. Deve ser esta a BICA GRANDE que deu o nome à CALÇADA. No outro lado do Bairro a poente, terá existido outra BICA (mais pequena) que estará na origem, possivelmente, no nome da «CALÇADA DA BICA PEQUENA».
À sua volta, a «BICA» fez-se «BAIRRO».
Embora parente pobre das «CHAGAS» e de «SANTA CATARINA», rico em cor, em alegria e de cheirinho a Lisboa.
Com uma população historicamente ligada às actividades marítimas a «BICA» mantém ainda hoje uma profunda identidade.
(1) - Estilo decorativo de origem francesa.
(CONTINUA) - (PRÓXIMO) - «RUA DA BICA DE DUARTE BELO [IV] - OS SOBRESSALTOS DOS DESABAMENTOS»


quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

RUA DA BICA DE DUARTE BELO [II]

Rua da Bica de Duarte Belo - (2009) - Fotógrafo não identificado (Um troço da Rua da Bica de Duarte Belo) in MILA
Rua da Bica de Duarte Belo - (1968) - Foto de Armando Serôdio (Pátio do Broas - a Bica que deu nome à Calçada da Bica Grande) in AFML

Rua da Bica de Duarte Belo - (1945) - Foto de Fernando Martinez Pozal (Escadaria de acesso à Calçada da Bica Pequena) in AFML


Rua da Bica de Duarte Belo - (início do século XX) Foto de Joshua Benoliel - (Na altura que o ascensor estava parado) in AFML
(CONTINUAÇÃO)
RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ II ]
«O BAIRRO DA BICA (2)»
Na sequência de um deslizamento de terras no ano de 1597, que destruiu uma primeira urbanização tendo feito desaparecer uma centena de casas, veio alterar profundamente o perfil do habitado monte, formando-se um vale onde se ergue o «BAIRRO DA BICA»(ver mais aqui), fica entre as actuais «RUA DAS CHAGAS» e «RUA MARECHAL SALDANHA».
A instabilidade da encosta foi-se prolongando, tendo-se registado em 13 de Fevereiro de 1621 novo desabamento de terras. A consolidação dá-se depois desta data com o reiniciar de novas construções.
Sabe-se que este Bairro foi pouco afectado pelo terramoto de 1755.
Com o aglomerado populacional da «BICA» a crescer muito irregular na encosta íngreme junto à ribeirinha «RUA DE SÃO PAULO», ganhando contornos mais racionais entre a «TRAVESSA DO CABRAL» e o «LARGO DO CALHARIZ», no topo da colina, onde se lotearam, em espinha, quarteirões regulares centrados pela «RUA DA BICA DE DUARTE BELO», no eixo do talvegue.
Quatro arruamentos rasgados perpendicularmente ligam as duas encostas, «SANTA CATARINA» e as «CHAGAS».
Era nessa altura, o Cabido da Sé que detinha o então senhorio directo dos terrenos.
A designação «BICA DO BELO» é conhecida pelo menos desde 1554, que veio a denominar o Bairro homónimo que hoje conhecemos.
«DUARTE BELO», um armador e negociante de Lisboa quinhentista que dispunha na «BOA VISTA» umas casas e um terreno no qual existia uma fonte (ou bica). Um tal «ANTÓNIO FERREIRA» terá adquirido por aforamento em 1707 o terreno, então público, onde se encontrava a bica. Querendo construir uma casa à face da actual «RUA DA BOAVISTA», foi obrigado a mudar a bica à sua custa ficando ele e seus herdeiros, responsáveis pela sua manutenção, conforme se pode ler na inscrição que a mesma ostenta. "He obrigado o dono desta propriedade a conservar esta Bica sempre corrente e à sua conta".
Da actual bica, obra de 1675, brotava uma água com qualidades medicinais, boa para curar males de olhos, daí se chamar «BICA DOS OLHOS».
Esta bica fica situada no seguimento da «RUA DE S. PAULO» para quem se dirige ao «CONDE BARÃO». Existia a «RUA DIREITA DA BOA VISTA DA BICA DOS OLHOS», hoje com o topónimo de «RUA DA BOAVISTA».
Infelizmente, a «BICA DOS OLHOS», hoje propriedade Municipal, encontra-se desactivada e abandonada. Estando prevista uma obra (2004) profunda no edifício que a engloba, seria a oportunidade ideal para a valorizar.
O troço inferior do arruamento a Sul da «RUA DA BICA DE DUARTE BELO» junto ao cruzamento com a «TRAVESSA DO CABRAL», recebeu a designação de «CALÇADA DA BICA PEQUENA».
Na «BICA GRANDE» existe ainda no interior do «PÁTIO DO BROAS», com entrada pelo número 2, a bica que veio dar o nome à Calçada em escadaria «CALÇADA DA BICA GRANDE». Por oposição, terá existido uma «BICA PEQUENA», que deu nome à artéria que lhe ficava próxima. Ambos os topónimos reflectem a abundância de água daquelas terras, que se traduziu na construção de bicas e chafarizes.
(CONTINUA) - (PRÓXIMO) -«RUA DA BICA DE DUARTE BELO [III]-(O BAIRRO DA BICA (3)»



sábado, 24 de Outubro de 2009

RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ I ]

Rua da Bica de Duarte Belo - (anos 30 do século XX) Foto de Eduardo Portugal (Travessa da Portuguesa esquina com a Rua da Bica de Duarte Belo) in AFML
Rua da Bica de Duarte Belo - (1945) Foto de Fernando Martinez Pozal (Um troço da Calçada da Bica Pequena) in AFML

Rua da Bica de Duarte Belo - (1936) - Foto de Eduardo Portugal (Rua da Bica de Duarte Belo) in AFML


Rua da Bica de Duarte Belo - (1915) Foto de Joshua Benoliel ( De Sul para Norte - Final da Calçada da Bica Pequena, início da Rua da Bica de Duarte Belo, altura da paragem do Ascensor que só retomaria em 1923) in AFML
RUA DA BICA DE DUARTE BELO [ I ]
«O BAIRRO DA BICA (1)»
RUA DA BICA DE DUARTE BELO» pertence à freguesia de «SÃO PAULO». Começa na «CALÇADA DA BICA PEQUENA» no número 22 e finaliza no «LARGO DO CALHARIZ» no número 14.
É atravessada de Norte para Sul pela «TRAVESSA DO SEQUEIRO», «TRAVESSA DA LARANJEIRA», «TRAVESSA DA PORTUGUESA» e «TRAVESSA DO CABRAL».
Em paralelo com esta rua no lado esquerdo situa-se a «RUA DO ALMADA», à direita a «RUA DAS CHAGAS». No seu envolvente tem ainda a «CALÇADA DA BICA PEQUENA», «RUA DOS CORDOEIROS», «LARGO DE SANTO ANTONINHO» e a «CALÇADA DA BICA GRANDE» que ligada à «TRAVESSA DO CABRAL» formam o «BAIRRO DA BICA».
O aumento populacional motivado pelos descobrimentos, fez LISBOA transbordar para fora da «CERCA FERNANDINA» expandindo-se progressivamente junto do rio a às principais vias que lavavam às populações do termo.
Na segunda metade do século XV os terrenos onde hoje se ergue o «BAIRRO DA BICA» faziam parte da vasta propriedade de «GHEDÁLIA PALAÇANO», um influente Judeu da Corte de D. DUARTE e de D. JOÃO II.
Os domínios de mestre «GUEDELHA» (como era conhecido), estendiam-se para Ocidente das «PORTAS DE SANTA CATARINA» e dividiam-se em duas grandes herdades, separadas pela estrada de «SANTO» ou da «HORTA NAVIA» (actuais «RUA DO LORETO», «LARGO DO CALHARIZ» e «CALÇADA DO COMBRO»), parte da via que levava a «ALCANTARA» e «BELÉM».
A «HERDADE DE SANTA CATARINA» ocupava as terras mais altas onde haveria de surgir o «BAIRRO ALTO», enquanto a «HERDADE DA BOAVISTA», marginando o Rio TEJO, se prolongava até à Esperança.
"Dóna JUDIA", viúva de «GHEDÁLIA PALAÇANO», em 1487, afora as duas propriedades a «FILIPE GONÇALVES», estribeiro do Rei. Por volta de 1498, em consequência das perseguições aos Judeus, "Dóna JUDIA" vende o senhorio directo das duas herdades a «LUÍS D'ATOUGUIA», a quem o estribeiro ficou a pagar foro.
«FRANCISCA CORDOVIL», filha herdeira de «FILIPE GONÇALVES», desposou «BARTOLOMEU DE ANDRADE» a quem o senhorio directo, então «LOPO DE ATOUGUIA», em 15 de Dezembro de 1513, autoriza o sub-aforamento das herdades, em talhões, segundo uma malha ortogonal, para construção de casas. Os primeiros terrenos a serem urbanizados, muito requisitados, marginavam o rio.
Esta urbanização terá começado ainda em 1498 e aí se fixou uma população maioritariamente ligada às actividades marítimas.
Após 1513 a urbanização cresceu rapidamente em direcção às «PORTAS DE SANTA CATARINA» subindo até «SÃO ROQUE».
(CONTINUA) - (PRÓXIMO) - «RUA DA BICA DE DUARTE BELO [II] - O BAIRRO DA BICA (2)»



quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA [ XII]

Campo dos Mártires da Pátria - (2009) Foto de APS ( Feira da Ladra no Campo de Santa Clara) Arquivo/APS


Campo dos Mártires da Pátria - (2009) - Foto de APS (Feira da Ladra no Campo de Santa Clara) Arquivo/APS

Campo dos Mártires da Pátria - (1940) Foto de Eduardo Portugal (Panorâmica sobre o Campo dos Mártires da Pátria) in AFML


Campo dos Mártires da Pátria (Segundo quartel do século XIX) Gravura de Alberto (Júlio de Castilho) (A feira da Ladra na Praça da Alegria) in DIAS QUE VOAM
(CONTINUAÇÃO)
CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA [ XII ]
«A FEIRA DA LADRA NO CAMPO DE SANTANA»
Explica-nos o Mestre António Vieira da Silva no seu livro «DISPERSOS» o significado de FEIRA DA LADRA.
"A nós, alfacinhas e moradores em Lisboa, a designação «FEIRA DA LADRA» não nos causa surpresa alguma, tão acostumados estamos a ouvi-la pronunciar desde crianças. Mas os habitantes do resto do país, e os estrangeiros, muitas vezes lhes terão ocorrido a interrogação: o que será a «FEIRA DA LADRA»? A esses diremos que a Feira da Ladra é uma feira ou mercado lisboeta, cuja origem remonta ou é porventura anterior à constituição da Monarquia Portuguesa, e se tem mantido seguidamente até à actualidade".
A origem deste mercado desaparece no obscuro do passado muito distante: em épocas bem longínquas fazia-se num pequeno Largo junto do Castelo de São Jorge, denominado «CHÃO DA FEIRA».
Documentos antigos contém referencias a uma feira que se realizava já nos tempos de D. Afonso II (1185-1223) e Norberto de Araújo, nas suas Peregrinações por Lisboa valida, afirmando: "A «FEIRA DA LADRA» (ou da LADA?), é um mercado lisboeta que remonta do século XII, e cuja avó foi aquela que se realizou, um dia por semana, no «CHÃO DA FEIRA», ao Castelo, com carácter muito diverso do que oferece hoje" (1).
A «FEIRA DA LADRA» andou pela «RIBEIRA VELHA», nas proximidades de «ALCÁÇOVA» ao Castelo, passou pelo «ROSSIO» pelos anos de 1552. Em 1610 existe a primeira postura oficial em que aparece o nome de «FEIRA DA LADRA», passa para a «PRAÇA DA ALEGRIA DE CIMA» (Cotovia de Baixo), de 1823 a 1835 de onde saiu para o «CAMPO DE SANTANA» (também conhecido pelo Alto da Caganita) onde permaneceu de 1835 a 1882. Existiu anteriormente uma deliberação em 18 de Março de 1823 para o funcionamento da «FEIRA DA LADRA» se efectuar no «CAMPO DE SANTANA». Porém em 10 de Junho do mesmo ano (três meses depois) era instalada na «PRAÇA DA ALEGRIA».
No ano de 1882 a Câmara mandou fixar a «FEIRA DA LADRA» (ver mais aqui) no «CAMPO DE SANTA CLARA» anteriormente chamado «CAMPO DA FORCA» e «LARGO DA FUNDIÇÃO DE CIMA» onde presentemente se encontra. Até 1903, a feira realizou-se neste lugar só às terças-feiras, aos sábados, tinha uma "sucursal" no Mercado de S. Bento.
Hoje realiza-se no «CAMPO DE SANTA CLARA» todas as semanas, às terças-feiras e sábados.
--//--
Publicado no "JORNAL DO COMÉRCIO" da autoria de Augusto Pinto Leal (Autor de Portugal Antigo e Moderno) no ano de 1874, indica a feira da Ribeira como possível antecessora da «FEIRA DA LADRA», por se realizar na margem «LADA» do Tejo.
Esta posição seria refutada por «ALBERTO PIMENTEL», que indica como origem da designação o facto de se venderem na Feira objectos roubados, conforme já tinha sido indicado na postura de 1610, sendo esta portanto, a etimologia mais provável, não existindo indicações de que a Feira tenha passado pela zona Ribeirinha de Lisboa.
A Bibliografia sobre a «FEIRA DA LADRA» é muito vasta.
Aconselho a quem necessite de mais desenvolvimento à cerca deste assunto, consultar o livro «A FEIRA DA LADRA»-Guias de Lisboa colecção dirigida por «MARINA TAVARES DIAS» IBIS-Editora, Lda. ano 1990, uma edição com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e do seu pelouro Cultural.
(1) - Peregrinações em Lisboa - Livro VIII, página 72.
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BIBLIOGRAFIA
- Atlas da Carta Topográfica de Lisboa - sob a direcção de Filipe Folque: 1856-1858-CML - Departamento de Património Cultural - Arquivo Municipal de Lisboa - 2000.
- Lisboa de Ontem e de Hoje - Rocha Martins da Academia das Ciências - Edição da Empresa Nacional de Publicidade - 1945 - Lisboa.
- Dispersos de António Vieira da Silva - Volume II - Biblioteca de Estudos Olisiponenses - Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa - 1985.
- Peregrinações em Lisboa- de Norberto de Araújo - Livro IV e VIII - 1992 - Vega - Lisboa
- Estátuas Portuguesas - Olhares de Pedra - Edição de Prosafeita, Lda. - 2004 - Lisboa.
- Dicionário da História de Lisboa - Direcção de Francisco Santana e Eduardo Sucena - 1994 - Lisboa.
- Dicionário Ilustrado da História de Portugal - Coordenação de José Costa Pereira - Publicações Alfa - I e II Volumes 1985 - Lisboa.
(PRÓXIMO) - «RUA DA BICA DUARTE BELO [ I ] - O BAIRRO DA BICA (1)»




domingo, 18 de Outubro de 2009

CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA [ XI ]

Campo dos Mártires da Pátria - ( s/d) - (Desenho de Domingos António de Sequeira) foto (Biblioteca Nacional de Lisboa - E- 148V.) (General Gomes Freire de Andrade) in WIKIPEDIA
Campo dos Mártires da Pátria - (s/d) - Fotógrafo não identificado (Gomes Freire de Andrade 1757-1817) in GENEALL
(CONTINUAÇÃO)
CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA [ XI ]
«GOMES FREIRE DE ANDRADE (1757-1817)»
Militar, maçon, fundador do Grande Oriente Lusitano, de que foi Grão-Mestre, combatente de mérito, bateu-se em diversas frentes, ao serviço de vários soberanos, num período muito conturbado da «EUROPA».
Sobreviveu a muitas batalhas, mas acabou por morrer enforcado em São Julião da Barra, às ordens do Comando Militar Britânico, após um controverso processo em que era acusado de conspiração contra as tropas de sua majestade que controlavam PORTUGAL. Transformou-se, dessa forma, num símbolo de liberdade.
Filho do Embaixador de Portugal na Áustria, «GOMES FREIRE DE ANDRADE»(ver mais aqui) nasceu em VIENA em 1757, tendo aí feito os seus estudos elementares.
Quando regressou a PORTUGAL, assentou praça como cadete no Regimento de Peniche. Já alferes, passou a servir na ARMADA. E foi como guarda-marinha que se distinguiu pela primeira vez em combate, durante o assalto espanhol a ARGEL, combate em que participou uma esquadra portuguesa.
Regressado ao EXÉRCITO, foi sargento-mor no regimento de Peniche e, depois de obter a respectiva licença, foi para a RÚSSIA servir nos exércitos de «CATARINA II».
Bateu-se contra os TURCOS na CRIMEIA e no cerco de OCZAKOV, sendo promovido pela imperatriz a tenente-coronel (1790) e, depois a coronel.
No regresso a PORTUGAL, foi nomeado coronel e integrou um dos regimentos portugueses que foram enviados para a CATALUNHA a pedido de ESPANHA para combater as tropas revolucionárias francesas.
Idolatrado pelos seus homens mas com dificuldades de relacionamento com os seus pares superiores (a quem acusara de incompetência), foi promovido, depois, a Marechal-de-Campo. Já com esse posto, comandou as forças portuguesas na guerra contra a FRANÇA e ESPANHA em 1801.
Com as invasões francesas (1807), o marechal, por ordem governamental, foi um dos comandantes da «LEGIÃO PORTUGUESA», exército que, às ordens de «NAPOLEÃO», combateu em várias das Campanhas do Imperador francês. A nível pessoal. «FREIRE DE ANDRADE» desempenhou funções de comando em DANTZIG e VILSA (Polónia). Esteve na «RUSSIA», e, como governador, em JENA e DRESDEN.
No regresso a LISBOA, acusado de ter colaborado com o inimigo de Portugal, foi ilibado, mas teve de deixar o activo. Debateu-se, então, com grandes dificuldades económicas. E, num país, (sem rei, e com o governo ausente no BRASIL) ocupado pelos britânicos, o seu nome passou a significar liberdade.
Apesar de não se ter nunca provado que o general «GOMES FREIRE DE ANDRADE» tenha conspirado contra «BERESFORD», o certo é que, após vicissitudes várias acabou preso, muito maltratado e foi enforcado sem julgamento sério no dia 18 de Outubro de 1817, (passam precisamente hoje 192 anos da sua morte).
«GOMES FREIRE DE ANDRADE» encarou o perigo que as ideias revolucionárias «LIBERAIS» representavam para o poder absoluto, para outros ficou conhecido como o primeiro grande «MÁRTIR DO LIBERALISMO PORTUGUÊS»
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A localização do seu monumento de pedra e busto de bronze, encontra-se na «RUA GOMES FREIRE» (muito próximo a este Campo), executado por FRANCISCO SIMÕES e pelo arquitecto LUÍS CONCEIÇÃO, inaugurado a 18 de Outubro de 2003.
(CONTINUA) - (PRÓXIMO) «CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA [XII] - A FEIRA DA LADRA NO CAMPO DE SANTANA»